quinta-feira, 14 de abril de 2011

Cláudia Alexandra Silva e Sousa (carricinha) foi vista pela última vez a 13 de Maio de 1994

«O principal suspeito do desaparecimento de Rui Pedro só foi acusado 13 anos depois. Como foram investigados outros casos antigos de crianças desaparecidas? O i foi à procura das pistas seguidas pelas polícias, como no caso de Cláudia Sousa, que desapareceu de Vila Verde há 17 anos


- Cláudia Sousa, a primeira da esquerda em cima -

A história tem tanto de misterioso como de estranho. Cláudia, sete anos, ia a caminho da escola, em plena aldeia, numa sexta-feira, 13 de Maio, quando foi vista pela última vez. Já passaram 17 anos e os investigadores da Polícia Judiciária (PJ) continuam sem conseguir explicar o que aconteceu no pequeno lugar de Lamela, freguesia de Oleiros (Vila Verde), naquela tarde de 1994.

Cláudia só tinha aulas de manhã, mas passava muitas tardes na escola. Era lá que lanchava e brincava com a filha de Goreti, uma funcionária. Naquela sexta-feira 13, a mulher pediu à criança que fosse a casa pedir um saco à mãe, para pôr o lixo da escola. Cláudia foi, mas a mãe disse-lhe que voltasse à escola e dissesse a Goreti que não tinha mais sacos. Foi durante o regresso - num trajecto de 500 metros - que desapareceu.

Foi o tio Abílio quem participou o desa-parecimento, no dia seguinte, no posto da GNR de Vila de Prado. Os militares e os escuteiros passaram a pente fino os poços, os tanques e as matas das freguesias vizinhas. Em vão. Mas havia uma pista, ainda que vaga. Uma vizinha contou que vira Cláudia a caminho da escola e que se terá aproximado dela um carro "cinzento ou preto", "modelo algo antigo". Só que Rosa L., conhecida na freguesia como Rosa Peneda, não sabia mais pormenores. Desvalorizara a situação, não viu quem ia dentro do carro e muito menos sabia garantir se Cláudia entrara. Por se suspeitar de rapto, o caso foi entregue à PJ de Braga.

A 17 de Junho, dois agentes da Judiciária vão falar com os pais - João, trolha, e Maria Jesus, doméstica. O casal contou que tinha quatro filhos, dois rapazes e duas raparigas. A mais velha com 11 anos, um rapaz com 10, a Cláudia com sete e o rapaz mais novo, com cinco. "Os pais são pobres e bastante alcoólicos", descreveram os agentes da PJ num relatório. Só depois foi ouvida a funcionária da escola, que contou que deu de lanchar a Cláudia por volta das quatro da tarde e acrescentou que era normal a mãe da menina ceder sacos para a escola, "por ser tecedeira" e ter muitos em casa.

Dias depois, os pais foram contar à PJ que suspeitavam que uma prima da mãe, chamada Maria Júlia, pudesse saber do paradeiro de Cláudia. Júlia tinha 17 anos e trabalhava como empregada doméstica numa casa em Famalicão, onde teria conhecido um rapaz com quem namorava e "pensava casar". Uns tempos antes, teria falado com a mãe de Cláudia e pedira-lhe para deixar a filha mais velha ir trabalhar para casa dos patrões. Maria Jesus recusou e a prima terá respondido que se não levasse a rapariga a bem "a levaria a mal e que se não levasse a mais velha, levaria mais nova".

cartas e Telefonemas anónimos A polícia foi então ouvir Maria Júlia, que negou tudo. Conhecera, de facto, um rapaz em Famalicão, mas nem sequer tinha carro e já nem namoravam. Agora, Júlia namorava outro rapaz, Rui, de uma freguesia vizinha, "que também não tinha carro". A prima acrescentou que, na semana do desaparecimento, teria estado a trabalhar na fábrica todos os dias - facto confirmado pelo patrão.

Entretanto, o desaparecimento era divulgado na televisão e um anónimo ligou para a RTP a contar que Cláudia estaria em casa de um casal, em Odivelas, a sofrer maus-tratos. A PJ chegou a desconfiar de um vizinho dos pais que vivia em Lisboa, mas o expediente foi arquivado. "Não se suscitando a realização de quaisquer diligências naquela cidade da Grande Lisboa e atendendo ao facto de o expediente relativo ao desaparecimento estar a decorrer nos departamentos regionais, arquive-se", aparece escrito no inquérito, que o i consultou.

Pouco tempo depois, outro tio de Cláudia, João, relatava à PJ que a menina poderia estar com uns tios que moravam em Alicante (Espanha). A polícia espanhola abordou-os e mandou dizer que não havia sinal da miúda.

Mais ou menos na mesma altura, Júlia B., de Barcelos, telefona para a PJ. Há menos de meia hora tinha sido contactada via telefone pela própria Cláudia. A menina, muito nervosa, disse-lhe que fora levada por dois homens para França. Os raptores soltaram-na "por um bocadinho" e conseguira usar o telefone. De seguida, a chamada foi cortada.

A 1 de Julho, chega nova pista. A PJ da Guarda envia para a PJ de Braga uma carta anónima, escrita à mão e no masculino, com carimbo dos correios de Vilar Formoso. A pessoa relatava que estava sentada "em frente ao Turismo" quando chegou um carro branco, "com a matrícula francesa 3743 73 ou 78". Dele terá saído um homem "e a menina desaparecida de Vila Verde". O remetente contava que se dirigiram a um banco, mas voltaram para trás, porque estava fechado. "No carro iam a olhar muito para mim, talvez com medo que eu fosse à polícia [...] Notei na miúda que estava com medo e ele atrapalhado", descrevia. A PJ pediu a colaboração das autoridades francesas, que informaram que esse carro era, afinal, um Civic vermelho, de um homem desempregado e "que disse nunca ter viajado para Portugal".

o mistério da certidão Em Outubro, a mãe volta a ser ouvida na PJ e admite que tinham começado a surgir comentários na freguesia, "sem saber como", de que os pais teriam vendido a menina. Mas os investigadores estavam na posse de uma informação bem mais interessante. No dia 7 de Setembro, uma irmã do pai de Cláudia, Maria Ana, foi ao Registo Civil pedir uma segunda via da certidão de nascimento da sobrinha. A mãe de Cláudia disse aos agentes desconhecer tal pedido. A polícia interrogou, de seguida, Maria Ana - que contou que só foi levantar a certidão a pedido de uma outra irmã, que morava em Gaia. E acrescentou que tinha ouvido contar que a família tinha vendido Cláudia "por 400 contos". A PJ quis ouvir as razões da tia de Gaia. Maria P. justificou-se dizendo que como tinham corrido rumores de que Cláudia pudesse estar em Espanha contactou a Guardia Civil, que lhe respondeu que só poderia investigar se tivesse o dito documento. Mas a mulher acabaria por confessar que não chegou a enviá-lo para Espanha. A certidão continuava, afinal, na sua posse e não tinha contado aos pais da menina porque sabia que "iriam recusar". Goreti, a empregada da escola, é ouvida novamente em Outubro e conta que Cláudia não ia para a escola à tarde só para brincar. Como os pais eram pobres, dava-lhe quase sempre o lanche. Goreti acrescentou que, pouco antes do de-saparecimento, um outro tio da menina, Júlio, teria passado pela escola e perguntou à miúda se queria ir para casa dele. Cláudia recusou e o tio foi-se embora. Ouvido pela PJ, Júlio confirmou tudo, mas contou que como era solteiro ainda vivia com o pai e era frequente levar os sobrinhos ao avô.

O padre dos pêndulos Em Janeiro de 1995, a PJ pede ajuda à polícia francesa, porque Cláudia podia estar em França. A Judiciária sugere o contacto com um padre, Manuel P., vigário da paróquia de Gentilly. É que o pároco teria sido contactado por outro padre, que recebera a indicação de que Cláudia estaria perto de Paris, em Gentilly. Teria sido um terceiro padre (trabalhava com pêndulos) quem havia localizado a miúda. Mas contactado pela polícia, o padre Manuel disse que achou as informações vagas. O caso é arquivado a 17 de Março de 1995.

Em Maio, Maria Jesus volta à PJ para contar que suspeitava que a filha pudesse estar na Suíça e que o rapto poderia ter tido a colaboração da prima Maria Júlia, que agora estava emigrada e "trabalhava com crianças". A polícia estranhou que a mãe só agora tocasse no assunto. Mesmo assim, o processo é reaberto. As autoridades suíças não encontraram qualquer sinal de Cláudia e tudo volta a ser arquivado, em Setembro.

Já em 2001, a PJ é contactada por uma mulher de Linda-a-Velha, Isabel, que, depois de ter lido um artigo sobre a menina num jornal, acreditou tê-la visto no Parque do Alto da Serafina, em Lisboa. Cláudia estaria com dois alemães "muito altos" e vestidos de "forma berrante". A PJ rapidamente concluiu que o depoimento não era fiável. Isabel disse que Cláudia "aparentava não ter mais de sete anos". Ora a mulher não fez as contas: a menina desaparecera em 1994 e, em 2001, teria de ter 14 anos. Hoje, Cláudia tem 24 anos. Tem uma cicatriz com cerca de dez centímetros na coxa direita e outra no lábio inferior.»
 
 
Texto in jornal "i" online, 14-4-2011
Imagem in Google

1 comentário:

  1. Gostava muito, de ver nesta pagina,agora que estamos no mundo das tecnologias,retratos dos desaparecidos,qual poderia ser o aspecto deles agora ao fim de uns anos,com cabelos de varias formas etc,seria quase seguro encontrar alguns deles!Deixo a minha sugestâo!

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